terça-feira, julho 06, 2010

Quando passo pelas ruas, assisto uma quantidade de imagens falsas. A perfeição humana está estampada por todos os lados. Não digo só do material gráfico, das revistas de moda, da publicidade babaca. Incluo as mesmas festinhas de sempre, com meninas iguais, derivadas de tons negros. Nossas gremlins reproduzidas nas madrugadas. Ou as microcelebridades que não pisam no chão. Pequenos brinquedinhos de plásticos. Falta o espontâneo, o verdadeiro. É como se a vida, para ser bela, precisasse de bons ajustes de photoshop. Isso me dá nos nervos. Talvez eu tenha nascido na época errada. Gosto do estranho, do peculiar, do mal acabado. Nada mais afrodisíaco que a verdade estampada. Prefiro abolir as máscaras, trabalhar apenas com real e ter olhos para sugar poesias cotidianas. 

quinta-feira, julho 01, 2010

O aluguel não foi pago, o contrato foi suspenso. Não adianta ter chave, nem conhecer o porteiro. Sou impedida de entrar. Não existe mais cama, travesseiro ou seu beijo na madrugada. A nossa casa virou um enorme quebra-cabeça com peças perdidas entre os meus vazios. Os sonhos foram empacotados e mandados para fora do país. Você trancou a porta, me atirou pela janela. Agora estou submersa em férias intermináveis, doses de whisky, cigarros mentolados, baseados e afins. Entregue a cidade desconhecida, a mesma cidade que já foi minha. De outra forma, em outro estado. Eu sinto o gosto do concreto, eu rabisco poemas nas quadras. Consumo todas as filosofias de botequim. Agora sou apenas mais uma parte da cidade. A minha casa está em mim, todo o resto é deleite.

quarta-feira, junho 23, 2010

Quarta feira, 4:30 da manhã.
Era cidade, com a boca rachada e entupida de álcool para esquentar o coração. 

quarta-feira, maio 12, 2010

Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, maio 10, 2010

Pra começar a semana...


"O Whisky é o melhor amigo do homem. Whisky é cão engarrafado.” 

Vinicius de Moraes 

domingo, maio 09, 2010

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Enfim, é preciso partir. Seguir a viagem. Entregar o passado. Esquecer todas as idealizações de algo que não pode acontecer. Ver os fatos. Por pingos, exclamações e interrogações - tudo em seu devido lugar. Revisar as intenções, ler a realidade, encarar o problema de frente. E principalmente, deixar as reticências para os contos e afins. As malditas devem ser eliminadas - são elas, as culpadas - enganadoras de coração, criadoras de caso, abutres do passado. Matemos as reticências. Ponto por ponto. Friamente. Com luvas brancas de pelica. E depois do assassinato, voltemos a caminhar. O simples fato de por um pé, depois o outro. Perceba as cores desse equilíbrio instável. Aceite o esbarrão, o tropeço. Mas abra as mãos. Recicle seus pedaços. Desintoxique. Entregue o cheiro que não te pertence mais. Sim, esqueça as reticências, elas estão mortas. Não adianta. Volte a dançar com o acaso, coma todas as gentilezas por ai. Esse é o melhor perdão para frios assassinatos.