quarta-feira, setembro 22, 2010

"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte."


Os Três Mal-Amados - João Cabral de Melo Neto

sexta-feira, setembro 10, 2010

(des)esperar - hoje!

Engraçado. Quando eu era pequena, sonhava em apresentar no Teatro Nacional. Não é que demorou, mas o dia chegou? Hoje, a Andaime Cia de Teatro apresenta (des)esperar na Martins Pena no Festival Mulher em Cena. Apareça e comemore comigo!  =]

ps: clique na imagem caso não conseguia ler...
ps2: a entrada é um pacote de absorvente!

terça-feira, setembro 07, 2010

domingo, setembro 05, 2010

sexta-feira, setembro 03, 2010

Versão Final


Quantas outras pessoas devem estar, nesse momento, conectadas? Somos apenas mais duas almas estranhas ligadas por uma rede lotada em pontos diferentes no meio do globo terrestre. Você, que teve seu cheiro lambido por mim, agora é uma imagem bidimensional na tela do meu computador.

A pele enlouquece a razão. Um email, uma mensagem, o apito do skype. Ela espera velada que o mesmo furacão invada a sua vida por aqui. Já ele, escondido na madrugada, deixa a mulher no quarto vazio e caminha nas pontas dos pés para o seu encontro.

Ao chegar a coloca em silêncio. Depois de quatro, de lado, de cabeça pra baixo. Escancara o amor dilacerado. Pede que ela navegue a câmera pelo corpo. Ela obedece. Sempre faz tudo que ele quer. É a tua gueixa, tua outra parte.

Lentamente exponho meus hematomas. Digo o quanto o amor tem me enlouquecido. Eu choro. As minhas lágrimas têm um gosto quente. Ele fala qualquer coisa como: colocar no colo, deitar sobre o seu peito, beijar a minha boca. Ele me mostra o seu pau duro. Diz que fica assim, toda vez que se lembra de mim. Tomo mais uma dose de whisky. Eu tiro a blusa, depois a calcinha. Fecho os olhos e escuto a tua voz preenchendo o meu quarto.

O cheiro dele reaparece entre as suas mãos. Em uma movimentação suave, os dedos dela desenham a boca. Percorrem o pescoço. E chegam ao meio, entre os seios. Opta pelo direito. Mostra a tal pinta escondida. Encostada ao bico, a sua pinta favorita, aquela que batizou com o nome dele. Não para de olhar para tela. Seus olhos encaram o homem que escorreu dessas mesmas mãos para o outro lado do mundo.

O gosto dele alimenta o seu sexo. Ela observa atentamente os teus movimentos rápidos e contínuos. Tem raiva dessa situação. Pede para que pare. Ele não consegue entender as suas idiossincrasias. Eram as mãos dela que deveriam benzer e massagear o seu ego. E não aquelas outras, as dele.

Sou a tua puta projetada a 11650 km de distância. Levo o laptop para o banheiro. Posiciono a pequena câmera e ofereço um banho. Derramo todos os líquidos. Numa seqüência clichê, eu me exibo pra ele. Troco qualquer certeza por esse homem. Os teus olhos embaralham as minhas lembranças.

Ele sempre oferecia uma dose. Dificilmente, ela aceitava. Gostava de beber no copo dele, como se o melhor condimento fosse sua saliva deixada na bebida. Quantas madrugadas eles brindaram juntos? Hoje ela bebia aqui, ele bebia lá. O whisky tinha sido presente dele. Era mais um dos agrados que ele deixara. Pequenos mimos espalhados pelo na tentativa de tornar presente o impossível. Como o perfume que ela passava todos os dias desde a despedida. Uma gota em cada lado do pescoço, depois nos pulsos, no colo. Cheirava longamente aquele aroma do seu homem.

A água era misturada com desejo. Meus dedos são conduzidos por suas palavras. Um, dois, três. Os movimentos são transmitidos pela web cam. Repetidamente, eu suspiro o seu nome. Para que apareça, para que ele se descole da tela, para que me preencha de vida novamente. Tem um olhar desesperador, o pau ainda duro. Troco o chuveiro pela cama. Continuamos incansáveis. Ele também chora, mas prefere disfarçar. Diz que me ama. Que tudo vai dar certo. Boca seca, o coração trêmulo. De alguma forma, ainda somos os mesmos. E assim, com mares de distância, ironicamente, nós gozamos juntos.

Você acredita em amores intransponíveis? Ele dedilha a sua covardia no piano, ela canta uma esperança remota. É tarde demais.

quinta-feira, setembro 02, 2010

quarta-feira, setembro 01, 2010


 cabelos guardam lembranças 
   

metade

Ele me coloca em silêncio. De quatro, de lado, de cabeça pra baixo. Ele escancara o nosso amor. Pede que eu navegue a câmera pelo meu corpo. Eu obedeço.  Sempre faço tudo que ele quer. Sou a tua gueixa, tua outra parte.

Lentamente exponho meus hematomas. Digo o quanto o amor tem me enlouquecido. Eu choro. As minhas lágrimas têm um gosto quente. Ele fala qualquer coisa como: colocar no colo, deitar sobre o seu peito, beijar a minha boca. Ele me mostra o seu pau duro. Diz que fica assim, toda vez que se lembra de mim. Tomo mais uma dose. Eu tiro a blusa, depois a calcinha. Fecho os olhos e escuto a tua voz preenchendo o meu quarto.

O nosso cheiro reaparece entre as minhas mãos. Em uma movimentação suave, os meus dedos desenham a boca. Percorrem o pescoço. E chegam ao meio, entre os seios. Opto pelo direito. Mostro a tal pinta escondida. Encostada ao bico, a sua pinta favorita, aquela que batizei com o seu nome. Não paro de olhar para tela. Meus olhos encaram o homem que escorreu dessas mesmas mãos para o outro lado do mundo. 
  
O gosto dele alimenta o meu sexo. Eu observo atentamente os teus movimentos rápidos e contínuos. Tenho raiva dessa situação. Peço para que pare. Ele não consegue entender as minhas idiossincrasias. Eram as minhas mãos que deveriam benzer e massagear o seu ego. E não aquelas outras, as dele.

Sou a tua puta projetada a 11650 km de distância.  Levo o laptop para o banheiro. Posiciono a pequena câmera e ofereço um banho.  Derramo todos os líquidos. Numa seqüência clichê, eu me exibo pra ele. Troco qualquer certeza por esse homem. Os teus olhos embaralham as minhas palavras.

A água é misturada com desejo. Os dedos são conduzidos por suas palavras.  Um, dois, três. Os movimentos são transmitidos pela web cam. Repetidamente, eu suspiro o seu nome. Para que apareça, para que ele se descole da tela, para que me preencha de vida novamente.

Tem um olhar desesperador, o pau ainda duro. Troco o chuveiro pela cama. Continuamos incansáveis. Ele também chora, mas prefere disfarçar. Diz que me ama. Que tudo vai dar certo no final. E por ironia do destino, gozamos juntos. 

Obs: Esse conto ainda não está finalizado, mas fiquei com vontade de postar essa parte aqui. Talvez em 3ª pessoa também. Espero que ele esteja inteiro até o meio de setembro...