quarta-feira, novembro 12, 2008

Apetitosa Cordilheira

Ontem acabei de devorar a Cordilheira do Daniel Galera. Tinha comprado o livro na sexta, mas só comecei a ler no domingo. Tenho uma relação estranha com os livros, assim como os amores, gosto de ler tudo de uma vez só, sem pausas e nem respirações. Não consigo ficar guardando os capítulos para o dia seguinte. Quero sugar tudo que aquelas páginas podem me dar em segundos. Só leio um livro se for assim. Tenho que ter uma paixão instantânea por ele já primeiras paginas, senão eu paro. E costumo ser fiel aos meus autores favoritos. Quando gosto do primeiro, vou ler todos os outros publicados. Foi assim que me apaixonei por Daniel Galera.

O primeiro que li foi Até o dia que meu cão morreu em julho desse ano. Graças uma matéria numa antiga bravo na casa da minha prima, conheci o autor contemporâneo, considerado uma grande revelação literária.  Fantástico e simples ao mesmo tempo, a escrita de Galera tem um que de Caio Fernando Abreu, só que mais atual. Ele rega o romance com uma espécie de solidão urbana que está presente em toda a nossa geração. A falta de toque, o medo de se relacionar, o desencanto perante tudo. Me identifiquei como se fosse eu a narradora daqueles relatos do homem entediado em seu apartamento.  Esse foi o meu primeiro beijo nas palavras do moço.

Agora, meu segundo encontro: Cordilheira. O romance tem como trama inicial a estória de uma escritora que não gosta do seu único livro e quer largar tudo para engravidar. Como o término de um relacionamento, ela foge para Buenos Areis onde suas letras vão ser lançadas. Até ai tudo bem: brigas de casal e fugas emocionais. Mas como traçar uma discussão central da vida de toda mulher contemporânea sendo homem ?

Somos criadas para sermos independentes, estáveis e adiar sempre o incomodo de uma gravidez. Ter um filho hoje é sinônimo de maluquices em quase todas as reuniões femininas. É maravilhoso ver a defesa de protagonista sobre o desejo de ser mãe. Faz a gente repensar escolhas e o que é vendido por ai como ideal feminino contemporâneo. E o mais incrivel é ler tudo isso através da voz grave de um homem que narra o universo feminino com uma intimidade impressionante.

Mas isso não é tudo. Galera também nos questiona sobre a apetitosa discussão entre o real e o imaginado. Até quanto do escritor tem no personagem escrito? Fiquei horas pensando sobre isso quando acabei o livro. Sou personagem de todas as minhas letras. Mesmo supervalorizando coisas, criando outras, tudo faz parte de mim. Não dá pra dissociar o artista da obra realizada por ele. Somos criadores e criaturas. Isso é abordado de uma maneira surpreendente no livro que não convém ser contado aqui.

Cordilheira fala de amor entre indivíduos, sonhos e literatura. Não tem como passar batido por ele. Isso aqui é mais que uma indicação, é um presente para as bocas devoradoras de livros.

Segue o vídeo sobre o livro, trecho e mini conversa com autor para dar mais vontade de ler:



8 comentários:

Camila disse...

Nossa, muito legal.

Tai disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tai disse...

Tava já quase ficando preocupada em ser tão piscianamente parecida com vc quando finalmente li esse post! Eu, com livros (e talvez tb com amores), sou o oposto! Quanto mais gosto, menos leio... Leio assim em doses homeopáticas para ele nunca acabar e deixar de fazer parte de mim!Sinto uma saudade dos livros que lí quase tão grande quanto a que eu sinto de pessoas que estão longe... Por exemplo um dos meus relacionamentos mais duradouros é "Confesso que vivi" do Neruda, to com ele há pelo menos quatro anos!

C.Dias disse...

Olá! Queria primeiro agradecer pelo comentário que deixou no blog. Se quiser linkar, esteja a vontade. E claro que retribuirei a gentileza com um link lá no CSSA. Esse livro do Galera é realmente ótimo. Me surpreendeu da melhor forma possível. Vc já leu "Mãos de cavalo"? Eu pessoalmente acho que ele é melhor do que "Até o dia em que o cão morreu" mas enfim... Acho que o Galera é um daqueles autores que vão vingar, sabe? O cara tem muito folego e munição, tenho um palpite de que ele vai entrar pra 'história'. No bom sentido, claro! :-)
Cheers,
Cassy

Lili disse...

fiquei com vontade de ler
engravidar tem parecido indecente msmo. a-ha

Leonardo Pastor disse...

Ótimo livro.

E bela moça na foto. Trata-se de você mesma?

Patrícia Del Rey disse...

sim sim.. Pastor.

beijinhos

Gustavo disse...

O mais bacana da foto que ilustra o posto é a grande sensação de intimidade com o livro que ela transmite. Intimidade e certo erotismo (sem sacanagem) que existe na relação entre um leitor e um livro que o conquista.
De mais! Acho que daria uma bela propaganda para o livro!
Como tu tirou a foto? Ficou bem batida, a capa apareceu direitinho...
Bacana o blog, parabéns!