quarta-feira, agosto 15, 2007

Iludida Vida

Te visitei hoje. Tinha tanto tempo que eu não te via. Aliás, eu me esforçava para sumir quando sabia que você ia aparecer. Saia de mansinho, bebia mais um gole de cerveja e dançava com quem tava do lado. Fazia questão de fugir de mim mesmo... Mas hoje era dia de visita. Mesmo com o coração ainda de luto, eu quis te ver! Quis pensar em você, nesse alguém, que nunca existiu. Parece loucura, visitar alguém que não existe. Mas sabe que hoje, te vi por ângulos novos. Você está mais bonito, e pela risada parece que está mais feliz também. Bateu até aquela saudade besta, aquela que mareja os olhos. Saudade do meu namorado inexistente! Um moço que passou por aqui apenas para destruir o meu coração imaturo. Uma imagem torta, uma percepção errada, movimentos precipitados e... Acabei despedaçada! Raiva. Amargura. Talvez um pouco de inveja também. Sentimentos impuros de uma mulher que visita o inexistente." É preciso destruir a ilusão de um talvez ou a lembrança boba do dia que imaginei que podíamos ser algo" - repito diariamente. Como posso ter tanta mágoa de alguém que nem existe? Porque tantos sonhos perdidos e caixas de chocolate devoradas? E me vejo calada, solta na noite, andando sem ninguém. Muitos braços, falta de abraço. Bocas secas sem paixão. E alguns corpos que nem me atrevo a tocar, porque sei que não consigo lavar a podridão que eles acompanham. Prefiro ficar só, passeando de um lado para o outro. Pra que pular de casa em casa, se não posso encontrar morada? São nesses dias, depois da visita, que fecho os olhos e escuto um jazz rouco. Eu, vestida de vermelho florido, danço dentro de um pequeno bar antigo, um visual sépia de um filme europeu da década de 50... Há um sorriso puro na minha boca e os meus lábios sentem o sabor antigo da esperança... Suave. Lindo. Pegada leve... Mas tudo passa rápido. Como você, a ilusão que criei. A realidade sempre bate a porta. Eu já nem sei onde estou! Ando repetindo palavras, comportamentos, sentimentos. Mas sei que não sou mais a mesma. Pra que visitar alguém tão distante? Talvez para fugir desse vazio, da minha poesia fraca, a necessidade idiota de parecer ser algo que não sou ou a luta incansável de tentar segurar lágrimas. Será que vale a pena? Rasgo de vez o seu endereço, coloco o jazz na vitrola, pinto os meus lábios de vermelho e sigo em busca da ilusão da vida real.

5 comentários:

Anônimo disse...

Sei que as coisas andam difíceis para os sonhadores. No entanto, a dificuldade é recompensada pela ilusão. Tolos são os que imaginam a vida como ela é, não os que imaginam como poderia ser.

"Ilusão", de qualquer forma, é uma palavra bonita, só cabe aos que se entregam. Além de que, há alguém por trás disso. E é real. O que bate aqui não é a porta, ela também está entreaberta, já nasceu assim. O que lateja por aqui é de verdade, tem pele, tem temperatura e tem cor.

Penso no jazz, na cama faminta, no vento frrrio no vento quente no vento frrrio no vento quente de Brasília, nos sorvetes em taças orgânicas, e em tudo, em tudo penso quando venho aqui.

Prefiro ser desatento à minha prepotência de achar que suas rasgações de endereço, desapontamentos, raiva, tristeza e comilanças de chocolate eram pra mim. Deixo que seja de outro, e mergulho dentro de sua maleta vermelha. Quero me carrapatear e ser carregado por aí.

Posso ser o vermelho. Você, as bolinhas brancas em cima de mim.

Pelos Olhos disse...

Nos últimos dias tenho me tornado insuportável e indesejável por mim mesmo.Tenho me visitado constatemente e nunca me encontrado em casa. Tenho oferecido café para os meus gritos enquanto fico surdo. Tenho tomado banhos gelados no inverno. tenho vestido casacos no verão para esfriar. Tenho me dado poucas chances. Tenho contado infinitos grãos de areia. Tenho ligado os televisores das janelas acesas nas madrugadas.Tenho incendiado lembranças gostosas. Tenho construído casas-jazigo.
Tenho coçado o ombro esquerdo por desconfiança.
Acordo todos os dias com a clara impressão de não existir. Há muitos dias que não me olho no espelho pelas manhãs.
Todas essas manhãs cansadas são responsabilidade minha. Bem-de -consumo perecível. Sem camas para dormir, sem olhos preenchidos. Apenas drama, sorrisos e risadas pálidos, olhos vazios e pesados.
Café para amargar a vida.
Sucos para rejuvenescer e suportar mais dias.
Cigarros para apagar meu quadro-negro.
Braços para me desabraçarem.
Eu para continuar sendo aquilo que sou desde o dia 12 de janeiro de 1981.O dia em que fui luz. O único.

Pelos Olhos disse...

E se a vida fosse demais pra mim?
Guardaria minhas mágoas em caixas de papelão marrom e quadradas.
Guardaria meus beijos em cubos de gelo.
Guardaria meus lençóis em tochas de fogo.
Guardaria toda minha esperança numa caixa de despesas.

Patrícia Del Rey disse...

Ao meu Anônimo Intimo,

Realmente as coisas andam complicadas por aqui, principalmente nos dias de vento frrrrio! Sinto saudade de uma companhia ideal para tomar sorvetes em taças orgânicas, de outro som que não seja o meu velho jazz na vitrola e tenho uma vontade louca de exibir o meu vestido vermelho de bolinhas brancas por ai... Ando com vontade de mudar!

Esse negócio de ser uma iludida é algo muito mais ambíguo que a realidade. Mas como você disse: a porta está sempre entreaberta e sigo com as minhas crenças... Acredito nas ilusões, sobretudo, as que movem os corações apaixonados! Acredito até em você, mesmo sem saber qual é o seu signo, a sua face ou se você tem cheiro de sorvete de amora. Coisa de gente iludida, regida pelas águas.

Quanto ao seu desejo de ser o responsável pelas rasgações e comilanças, acho que não é você que acarreta esse papel... Porém, te afirmo, que você é responsável por outras sensações bem mais interessantes. Como a vontade de te redescobrir e quem sabe então, carregar o seu vermelho comigo e enfim virar bolinhas brancas...rs

Anônimo disse...

Você é minha diversão. De uma cor só. =)