segunda-feira, maio 09, 2011

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Deveria parar de se preocupar com possíveis visitas. Entender que não há nada de tão especial nessa estória clichê. Gritar no meio da rua, dentro do carro, no banho, no divã, na cama com um pau desconhecido. Deveria gritar até que a voz acabasse. Até dizer: chega. Até que as lágrimas parecem de escorrer. Deveria beber a garrafa inteira de conhaque, subir na mesa do Beirute e cantar Roberto Carlos. Escrever um livro para esgotar o que ainda resta de dor. Vender os detalhes sórdidos, as atitudes desonestas. Vomitar a mágoa que ele introduziu delicadamente no seu peito. Rasgar todas as cartas ridículas, deletar as fotos que não foram impressas, quebrar todos os presentes que restaram. Deveria matá-lo da forma mais dolorosa possível, enterrar o corpo com o desprezo necessário e depois dançar a sua liberdade em cima do caixão .   

6 comentários:

carolnespoli disse...

Feito sob encomenda pra mim?

=)

De qualquer forma, me apropriarei destas palavras em meu cotidiano, já que as minhas próprias parecem ter sido esgotadas em seus significados...

Patrícia Del Rey disse...

Carol,

Fico feliz por tocar você, Carol. Também estou repetindo essas palavras todos os dias. Até que elas se transformem em ações e verdades aceitas/desejadas pela minha pele.

Doí, rasga...mas passa. Inclusive, é por isso que machuca. Depois que você dançar em cima do caixão, vai perceber que as lágrimas derramadas perderam o sentido. Que você deu o melhor de si, e que não podíamos obrigar o morto escolher por nós.

Amar também é aceitar a escolha do outro, e saber a hora certa de fechar a porta. Mesmo que você quisesse deixá-la aberta ainda por longos anos, porque sabe que a qualquer hora pode ser visitada.

Aconselho enterrar os restos do amor. Ficar sozinha. Ver um por do sol com a sua melhor amiga. Beijar um estranho na fila do banco. Beber o morto, e descobrir a vida em seguida.

um beijo, Linda. Boa sorte por ai.

Anônimo disse...

Sensível, inteligente, Linda. Enterra logo esse morto e vem dançar na minha cama.

beijos em ti, Del Rey.

carolnespoli disse...

Suas palavras me tocam. Sempre. Aliás, adorei a idéia: dançarei em cima do caixão do morto, ao lado de outro corpo até que o suor cubra o caixão com meu gozo e, enterre, definitivamente, o defunto com essa minha verdade.

Boa sorte pra nós.
=)

Kamala Ramers disse...

Abandona o futuro do pretérito!

Patrícia Del Rey disse...

Excelente, Kamalinha... I love you!