É
difícil escrever sobre o tal ano. Ambíguo, revolto. As vezes, parece que se
passaram dez ou vinte deles em apenas um. Depois, sinto que o mesmo nem começou.
Passou a vez, pulou a jogada. Mas, talvez, eu esteja apenas acanhada para dançar
sentimentos. Praticamente calada, permaneci. Troquei a poesia pela parede,
pelas garrafas, por lambe-lambe. Me
entreguei a uma língua específica, a dela. Posso falar primeiro dos meus três
meses cariocas, da minha solidão quente, do meu livro lançado. De quase noventa
pores do sol no arpoador - como é estranho esse plural, já que todos foram exclusivos,
enfim. Lembro da Marcela, da nossa invasão Almodovar na casa do Ex, a limpa no
apartamento e a comemoração no azulejaria, boteco pé sujo da Lapa. A rosa
branca, meu disco favorito do Caetano e mil velas em Santa Tereza. Como é
triste quando um amor se perde antes de começar. As madrugadas sozinhas, o
samba do Bip Bip aos domingos. Aqui, tudo é Carnaval. O nosso encontro, o
encontro deles. Á três. Evoé, Dionísio, Evoé . O apartamento sem móveis ou
porcelanas, apenas corpos distintos. Tal
cheiro, tal forma. Somente o sexo é desprovido de pecado. A minha volta. Trocar
os pés pelo carro, olhar novamente Brasília. Perder patrocínios, me despedir de
amigos. Ver que os caminhos mudam, que os sonhos percorrem outros rumos.
Aceitar o outro, me aceitar. Pixar tudo que vê pela frente, mudar o nome da ponte. Conseguir transformar arte
em política. Trabalhar feito uma condenada. Viajar para 10 lugares diferentes,
ter saudade de casa. Receber a benção toda quarta-feira, rezar para o que
parece incurável, pegar a minha filha, a minha irmã no colo. Chorar escondida,
compulsivamente. E implorar pra ter fé.
Ver todo preconceito espalhado por ai e me ver imbuída de preconceito também.
Como estrangular a “sociedade” que
existe em mim? Que diferença é essa, enfim? O que te faz melhor? Não adianta o
politicamente correto, se não há abraço. Ser amiga de puta, viado, sapatão,
travesti, aidético. Ser inteiro, semelhante. Não classificado. Entender que
todos temos direito ao clichê. Viajar a dois, conhecer as pintas. Gozar no meio
do Teatro Colón. Na cachoeira particular. Na escada inca. Num colchão inflável.
Entender que o amor é algo que se espalha quanto mais se compartilha. Semente
que brota por todo lado. Independe de cor, gênero, tatuagem. Ter certeza das
escolhas, dos silêncios. Aceitar a covardia de si, do outro. Ter uma irmã que
vai casar e mudar pra China. Os ciclos, os traumas. Saber dar pontos finais.
Não desistir. Superar as miudezas. Aceitar os textos sem revisão, a peça sem
ensaio. Entender que alguns personagens não serão vividos pela tal atriz. Não
escrever uma linha sequer de poesia. Dizer tudo sussurrado em apenas um ouvido
específico. A casa de vidro, os cachorros, grama verdinha, os filhos, um marido
divido. Ter um ideal hippie pintado a duas mãos. A nossa delicadeza. O trabalho
árduo, a sede bagunçada. Quatro projetos aprovados. Grana, imposto, conta,
mudança. Suplicar para que o ano acabe. Querer continuar calada. Fazer
piquenique no meio de obras de Land Art. Sair em todos os jornais. Entrar na
internet, aguentar aeroportos. Recife, São Paulo, Salvador, Palmas, Cuiabá,
Primavera do Leste. Pedir que tudo pare. Que o mundo realmente acabe. Que os
vulcões explodam, que as tsunamis levem tudo. Que exista apenas a morada: o
outro corpo. Chorar de saudade e desespero. Fazer prestação de contas. Passar
horas divertidas em um ateliê emprestado. Me reinventar. De novo.
segunda-feira, janeiro 07, 2013
domingo, dezembro 30, 2012
sexta-feira, dezembro 07, 2012
iguais.
Dormir junto. Conversar até amanhecer. Fugir do cotidiano. Dividir a ansiedade. Compartilhar a loucura. Vibrar no plural. Espalhar o foda-se em áreas diversas. Esquecer do passado. Salvar-me num cavalo branco. Andar a pé pelas quadras. Entender o seu choro compulsivo. Receber as minhas mãos. Construir um presente. Dizer que vai dar certo, mesmo quando parece que o mundo vai despencar. Admirar o cheiro do dia. Pedir pra eu ficar mais. Tirar a minha blusa, tirar a sua blusa. Sugar e beijar as bocas (de cima, de baixo). Deslizar a língua nos pentelhos, seios, virilhas. Morder as suas coxas pra escutar o seu gritinho no meu ouvido. Desejar uma paixão assumida de mistura de alma
quinta-feira, dezembro 06, 2012
...
O dia acordou nublado. Estava esvaziada. Você não saia da minha pele. Como uma espécie de dor, que mais fácil aceitar, do que nadar contra. Me atirei nas palavras, nas perguntas usuais. Poderia tentar descrever aqui, todos os pormenores que me caraterizava como uma mulher " ridícula e insegura". Mas tal discurso só faria sentido se tivesse olhos e a tua boca perto, a ponto de um suicídio. Me senti pequena dentro da sua imensidão. Você fazia parte de tudo que me rodeava. De forma, que se houvesse um corte, eu estaria á deriva. O amor me afogava, me tirava do centro. Tive medo de mim, da pouca coragem que restava. Do seu sorriso devastador, do cheiro da virilha, a carne macia. É tarde, o sol sendo engolido pelo mar.
terça-feira, julho 10, 2012
terça-feira, julho 03, 2012
segunda-feira, julho 02, 2012
...
Metade. Segundo semestre. Devo voltar escrever, agora. Buscar uma nova rotina, um foco específico. Rever cadernos, e-mails, anotações. Quero um novo romance. Experimentar mais uma vez. É engraçado vivenciar a ausência depois de tanto preenchimento. Parece que ainda estou em processo de digestão. Sinto falta do encontro, da madrugada, das incertezas. O exercício de entrega plena, de massacre, de tortura. Despejar conscientemente um bocado de mim na maldita folha em branco. Escrever é um ato de egoísmo solidário. Sinto-me só quando as palavras faltam, quando o silêncio não dá o tom. Esse gosto de ferrugem que invade a boca, os poros. É triste ficar assim, amorfa. Discurso vazio e fantasia rasgada.
domingo, julho 01, 2012
sexta-feira, junho 22, 2012
Poesia na geladeira
Meus poemas viraram garrafas para
embelezar cozinhas tristes e geladeiras vazias. Elas estarão expostas (e disponíveis a venda!)
nesse sábado na Feira 102 realizada no Objeto Encontrado.
As belezocas foram feitas em
parceria com a artista plástica Patrícia Bagnieviski e o Coletivo Transverso.
Pra quem não conhece o trabalho desenvolvido pelo grupo, vale a pena passear
pelos links. E pra quem quer ver as garrafas de perto, fica o convite de um
sábado animado. =]
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