quarta-feira, junho 18, 2008

Canalha

Acossado, de Jean-Luc Godard

"Beijei um canalha!" - ela disse de olhos fechados a si mesmo no meio da madrugada. Nem nomes, nem poemas, nem perfumes. Apenas um corpo desconhecido e descabelado que introduzia sem pudor aquele gosto específico nos seus lábios secos. O gosto característico de uma espécie rara, quase extinta no mundo atual. O gosto de um canalha perfeito. Digo desses autênticos. Rodriguianos. Convencionais. Escorregadios. Com a voz rouca, cara de carente e as mãos macias. Um canalha de marca maior... Num primeiro momento, além de surpresa com a descoberta, ela ficou extremamente excitada com a possibilidade de ser transportada para um novo lugar. Ou melhor, um antigo lugar. Um lugar preto e branco. Nouvelle Vague com banquinhos e música francesa ao fundo. Não que ela fosse romântica, ainda mais com ícone desses do seu lado, mas é que só conseguia imaginar tipos como esses nos filmes antigos. "Não é que canalhas existem?" pensou enquanto esboçava um sorriso no canto da boca. Não que ela fosse masoquista ou maluca. Pelo contrário, a constatação de que havia beijado o tal moço fazia dela, a mulher mais feliz do mundo naquela pista suada de sábado. Era como se ela tivesse dançando abraçada com a verdadeira identidade secreta masculina. O estereótipo que tinha sido alertada tantas vezes pela sua avó, pela vizinha fofoqueira, pelas revistas clichês. Ali, ao alcance das tuas mãos, um canalha! Bingo! Enfim, resposta certa! Nada mais de conversas doces, presentes doados ou um futuro delicadamente planejado. Mesmo porque, para os canalhas, o futuro não existe. O que existe é essa pista lotada, cheia de bocas e bundas, essa música gritando, a cerveja gelada no corpo quente. E cá pra nós, um homem desses, não engana ou assusta as mulheres. Talvez garotas. Mas não mulheres. "Eu tenho medo dos cordeiros, e não do lobo mau." - ela repetia nos dias de caçada. E o que é um canalha, senão um belo lobo mau? Ele escancara tua fome, pede cafuné e te garante uma noite deliciosa se você permitir. "Sim...Mil vezes sim..." - sussurrava ao pé do ouvido transformando seu canalha em presa. A música continuava alta, os corpos cansados dançavam e ela era engolida lentamente pelo seu par fora de moda. Carona, casa, quarto, cama, corpo, cansaço, canalha. “Qual era mesmo o nome dele? ”- ela tentava se lembrar, no dia seguinte, esbarrando com o sorriso apaixonado do moço ao lado, que insistia em dar mais um beijo depois de uma noite quente na cidade fria.

7 comentários:

gus e didi disse...

QUE CANALHA!!!!

Em defesa dos Sedutores disse...

O canalha é um mito. Só existe canalha quando vocês, senhoritas, são Santas. Uma coisa não existe sem a outra. O que existe sim são vagabundos que não fazem as coisA direito. Oras! Depois sobra pros cavalheiros que se recusam a vender gato por lebre sem abrir mão do romantismo. CPIs voando feito morcego doido por cima de nossas cabeças... Arrrree Diacho... Santa pede Demo, Demo pede Santa. E não me venham com sympathy for the devil! Diabo é coisa careta e redundante. Já existe o ser Humano. Pode haver coisa mais fela da puta do que isso? Agora pergunto e respondo a minha própria pergunta: Patricia Del Rey é santa? NÃO. Patricia Del Rey quer uma vaga no estacionamento exclusivo do Reino de Jesus Cristo Nosso Senhor lalalala Passa o Visa Amem? NÃO.

GRAÇAS A DEUS.

Você encontrou um cavalheiro de responsa. Os vagabundos que se cuidem.

Bom te ver em plena forma, garota.

Cordialmente desconhecido,

Dom Casanova Enfilófio das Quebrada Braba.

Patrícia Del Rey disse...

É importante deixar claro que isto é uma obra de ficção.Qualquer semelhança com a vida real é mera conhecidência...rs
Além do mais, como Patrícia, acredito nas forças dos canalhas.. E quando falo canalhas, não falo de gênero, falo de ginga. Por isso, meus caros, já dizia Fernando Pessoa: " O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente"

beijo

Poeta

Que beleza disse...

ahã...Sei.

Rssss...

Foi bom desabafar nessa tua praia que, diga-se de passagem, esta um primor literario tanto na dor quanto na alegria.

Beijo no teu coração que, pelo visto, esta mais leve.

Cordialmente anônimo,

Dom Casano...oras você sabe porra...

PHeu Liz disse...

Oie, ...

Linkei você!

Deposi dê uma passadinha no meu!

=*)

AgOra amigas de blOg!

ab disse...

Viva nós viva e a tu, viva ao rabo do tatu! O importante é o que ficou!

gus e didi disse...

Esse eu já conhecia, mas o outro ainda num achei... mas o papo de ontem .. achei.. massa, intenso, divertido e com uns brancos ocasionais de memória... me manda seu e-mail pra continuar o papo?

beijocas