terça-feira, janeiro 26, 2010

Fragmentos

Todas as mulheres do mundo surtam. Eu não seria diferente. Não está ligado há maturidade ou educação. O surto é uma condição inerente ao sexo feminino. Não posso falar sobre o outro gênero por motivos óbvios. Pouco importa essa discussão sexista. O que importa é o ato em si. É a liberdade provocada pelo surto.

Quatro horas de sono. Pelo terceiro dia consecutivo. Nenhum remédio acalma o mar agitado. A exaustão estava impregnada. O corpo era machado de tons roxos por todos os lados. Pedia um carinho específico. A saudade estava latente e eu comecei a sangrar as cinco da tarde.

O sangue celebrava mais uma morte. Já devia ter 140 ou 150 assassinatos cometidos. Nós, mulheres, somos assassinas natas. Variação hormonal, auto-engano e carência extrema. Meu pacote embalado para presente.

Eu precisava de um parágrafo longo, sublime e excêntrico. A minha poesia estava entregue a sua enorme cama. Você habitava as minhas horas. O meu corpo era lembrança, a cabeça desejo. O engarrafamento, a performance do shopping, a produção da peça, a pauta marcada. Queria dividir o que resta de mim com você. Queria te doar as minhas quedas. Queria sugar o teu sêmen até o fim.

Nada de ligações ou mensagens. Estava amarrada há uma situação peculiar. Surpresas são arriscadas e sexta-feira não é dia de visita. Mas as regras são feitas para serem quebradas. Quando dormimos pouco, agimos instantaneamente.

Havia o carro dela, havaianas rosas e mentiras espalhadas. A porta estava fechada. Eu poderia tocar a campainha e começar o show. Ou deixar uma rima em seu pára-brisa com o meu batom vermelho. Ou quem sabe esperar o dia amanhecer. Poderia conhecer o outro corpo que compartilho há seis longos meses.
a
Ela que está presente ao beijar os teus cabelos. Ao sugar a boca macia. Ao sentir o gosto peculiar das entranhas. Teu outro corpo, minha desconhecida íntima. Deveríamos trocar músicas, cores de esmalte e filmes franceses? Misturar o meu pecado com o seu corpo traído? Deveríamos passar as noites desvendando você?

Era tarde demais para escândalos. Meu salto alto impedia o grito. Faltava coragem para a pontuação necessária. Havia lágrimas e dor. Uma rima patética, uma cena clichê. Quantas partes serão arrancadas? Um dia, a linha finaliza e os furos serão visíveis. Os poemas vão ser insossos. A melancolia vai substituir o sorriso. E tudo vai estar acabado. Eu darei um passo. Depois outro. E seguirei sem muito foco. Com dois calmantes e uma garrafa de vinho.

Um comentário:

Carol disse...

Sempre haverá, dentre todas as mulheres do mundo, aquela que marcará... Que arrancará lágrimas de suor das entranhas de seu amante... Aquela que, apesar do surto, será intensamente devorada, ardentemente desejada, e, acima de tudo, amada pela eternidade do instante.

(mais de mim, se quiser: carolnespoli.zip.net).

=)