sexta-feira, setembro 03, 2010

Versão Final


Quantas outras pessoas devem estar, nesse momento, conectadas? Somos apenas mais duas almas estranhas ligadas por uma rede lotada em pontos diferentes no meio do globo terrestre. Você, que teve seu cheiro lambido por mim, agora é uma imagem bidimensional na tela do meu computador.

A pele enlouquece a razão. Um email, uma mensagem, o apito do skype. Ela espera velada que o mesmo furacão invada a sua vida por aqui. Já ele, escondido na madrugada, deixa a mulher no quarto vazio e caminha nas pontas dos pés para o seu encontro.

Ao chegar a coloca em silêncio. Depois de quatro, de lado, de cabeça pra baixo. Escancara o amor dilacerado. Pede que ela navegue a câmera pelo corpo. Ela obedece. Sempre faz tudo que ele quer. É a tua gueixa, tua outra parte.

Lentamente exponho meus hematomas. Digo o quanto o amor tem me enlouquecido. Eu choro. As minhas lágrimas têm um gosto quente. Ele fala qualquer coisa como: colocar no colo, deitar sobre o seu peito, beijar a minha boca. Ele me mostra o seu pau duro. Diz que fica assim, toda vez que se lembra de mim. Tomo mais uma dose de whisky. Eu tiro a blusa, depois a calcinha. Fecho os olhos e escuto a tua voz preenchendo o meu quarto.

O cheiro dele reaparece entre as suas mãos. Em uma movimentação suave, os dedos dela desenham a boca. Percorrem o pescoço. E chegam ao meio, entre os seios. Opta pelo direito. Mostra a tal pinta escondida. Encostada ao bico, a sua pinta favorita, aquela que batizou com o nome dele. Não para de olhar para tela. Seus olhos encaram o homem que escorreu dessas mesmas mãos para o outro lado do mundo.

O gosto dele alimenta o seu sexo. Ela observa atentamente os teus movimentos rápidos e contínuos. Tem raiva dessa situação. Pede para que pare. Ele não consegue entender as suas idiossincrasias. Eram as mãos dela que deveriam benzer e massagear o seu ego. E não aquelas outras, as dele.

Sou a tua puta projetada a 11650 km de distância. Levo o laptop para o banheiro. Posiciono a pequena câmera e ofereço um banho. Derramo todos os líquidos. Numa seqüência clichê, eu me exibo pra ele. Troco qualquer certeza por esse homem. Os teus olhos embaralham as minhas lembranças.

Ele sempre oferecia uma dose. Dificilmente, ela aceitava. Gostava de beber no copo dele, como se o melhor condimento fosse sua saliva deixada na bebida. Quantas madrugadas eles brindaram juntos? Hoje ela bebia aqui, ele bebia lá. O whisky tinha sido presente dele. Era mais um dos agrados que ele deixara. Pequenos mimos espalhados pelo na tentativa de tornar presente o impossível. Como o perfume que ela passava todos os dias desde a despedida. Uma gota em cada lado do pescoço, depois nos pulsos, no colo. Cheirava longamente aquele aroma do seu homem.

A água era misturada com desejo. Meus dedos são conduzidos por suas palavras. Um, dois, três. Os movimentos são transmitidos pela web cam. Repetidamente, eu suspiro o seu nome. Para que apareça, para que ele se descole da tela, para que me preencha de vida novamente. Tem um olhar desesperador, o pau ainda duro. Troco o chuveiro pela cama. Continuamos incansáveis. Ele também chora, mas prefere disfarçar. Diz que me ama. Que tudo vai dar certo. Boca seca, o coração trêmulo. De alguma forma, ainda somos os mesmos. E assim, com mares de distância, ironicamente, nós gozamos juntos.

Você acredita em amores intransponíveis? Ele dedilha a sua covardia no piano, ela canta uma esperança remota. É tarde demais.

2 comentários:

Camila disse...

muy bueno...

Anônimo disse...

Muito bom!
Repassa arrepios, calor...
contamina as vontades
(e me deixa de pau duro)