segunda-feira, outubro 06, 2008

Cimento Urbano

Toque: ato ou efeito de tocar; contacto; pancada; percussão; som; ato de tocar instrumentos; som que determina a execução de operações ou manobras militares; sabor ou cheiro especial de certos vinhos; vestígio; inspiração; esmero num trabalho artístico; aperto de mão como cumprimento; mancha que constitui indício de apodrecimento na fruta.


É triste. O tempo escoou esse nosso substantivo masculino. Não sei se saiu de moda, mas o certo é que cada vez mais estamos imbuídos em uma solidão urbana eterna. Vivemos no mundo embalado a vácuo. Não sei tocar, nem sei ser tocada. Parece estranho olhando de fora. Mas é mais normal do que se imagina. Enquanto a visão sobra no mercado, o tato desapareceu das prateleiras. Talvez seja culpa do medo em excesso. Toque, rasgos, mãos. O contato é sempre contagioso e muitas peles estão doentes.


Há algum tempo, olhando pelo espelho, descobri uma mancha cinza no meio das minhas costas. Era o começo dessa tal praga. De forma rápida, a mancha se espalhou pelo corpo e a pele ficou assim: coberta de cimento urbano. E não há chuva que consiga penetrar o concreto, a cara feia, o bico mimado. Somos cobertos de um egoísmo medroso que envergonha própria espécie. Fechada, mesmo com a fachada aberta, nos trancamos em ilusões momentâneas. E como se os toques não passassem de pequenos espasmos em corpos efêmeros e desconhecidos. Sozinhos, seguimos nos nossos carros poluentes pelas ruas largas da cidade planejada.
Será que esse era o plano? Uma cidade rodeada de monumentos brancos, tempo seco e espaço. Muito espaço. Brasília expande o espaço entre os corpos. É preciso sair, é preciso dançar, é preciso chegar perto. Ou você se força a fazer isso, ou amplitude te afoga. Temos que por o concreto disponível para ser martelado, mesmo que doa, sangre e rasgue. Se livrar dessa epidemia contemporânea. E tocar. Mas como tocar???


Som das palavras soltas. Saborear o gosto de uma erva dividida. Cheirar a visita efêmera da chuva. E principalmente dialogar com as mãos. Cuidar para que elas não esmaguem. Ou deixem escorrer. Arrancar a casca. A minha, a sua, a nossa. E se atirar de novo. E mais uma vez. E outra. E ter coragem. Ser Vinicius. Aceitar o vício. E abrir as pernas. E gritar de vez em quando. Essa é a minha tentativa poética de medicamento. Temos que agir rápido, porque a doença está se alastrando. Precisamos colorir essas peles acinzentadas. Eu ainda não sei remover a minha mancha. Nem dissolver o concreto. Mas acredito no poder das minhas mãos. E das suas também.


2 comentários:

Anônimo disse...

Fiquei curioso pra te conhecer um pouco mais, ainda hoje à noite. Gostei desse post, em particular. Beijo, Ricardo

Patrícia Del Rey disse...

Oi, Ricardo...

Só vi seu comentário hoje! Que bom que apareceu para me ler... Depois me add no msn pra gente conversar mais sobre o nosso cimento urbano!

beijo

patylu313n@hotmail.com