terça-feira, dezembro 21, 2010

Balaço Geral

O ano começa pra mim. Perda das certezas. Família, papai infartado. UTI. Meus passos solitários. Sou a segunda opção. Barraca de camping, praia, ondas, festival, as primas, os conselhos, a Bahia. Masturbação solitária. Gotas lisérgicas que benze a minha cabeça. A água do mar. Salvador. O mouse da vovó, o iate clube, jazz no ouvido. Falta dele, raiva de mim. Teatro Pós-dramático. Lehmann. Um novo processo. Volta pra casa. Brasília quer que eu pinte a minha dor nos seus monumentos brancos. Terceira ponte. UnB. Escadinha Inca. Os braços do homem que eu amo. Um quarto azul. Uma batida de carro. A importância da outra parte envolvida. Mentiras tolas. Necessidade de sumir. Terminar. Vontade de gritar. Um encontro num bloco pré-carnavalesco. A dor de saber que o verbo amar é conjugado por três pessoas. Dividida. Lágrimas pré-anunciadas. Tarô da Aline. Banho de sal grosso. Reencontro. O píer do parque da 13, o  Lago Paranoá. A perfeição poderia ser quebrada? Rio de Janeiro.  O carnaval, os telefonemas, as mensagens, desespero. Saudade. Compra-se Liberdade. Um peixe, uma estante branca, um casamento. Os atores gostam de inventar amores. Somos duas vogais dentro de uma poesia curta. Representamos bem os nossos papéis. Lágrimas masculinas no aeroporto.  A realidade. Como encarar a quarta-feira de cinzas? Brasília me oferece o teu colo. São apenas dois últimos encontros, antes da morte do quarto azul.  Os corpos dialogam, as palavras somem, os orgasmos se multiplicam.  O carregador me acorda, leva o nosso colchão. O quarto está quase vazio. Vou virar lembrança. No banho, eu escorro pelo ralo. O último almoço, um livro de astrologia. Meus gritos engarrafam os carros no Eixão. Um dia inteiro deitado na cama. Não há ligações, não há mensagens. Sou barrada no aeroporto. Olho no relógio, o avião deve está subindo. Ele parte, e sou eu que fico desabrigada. Um silêncio de 20 dias. Tenho pesadelos. Tenho saudade de mim. Onde eu me perdi?  Minha boca está cheia de ferros e aftas. Teatro, trabalho, produção. A cidade se exibe para as serpentes. Damos o bote. Comemos todas as siglas. Todos os jornais. Todos os críticos. Mais uma peça do Andaime. Devo me atirar lá de cima? Pagamentos, apoiadores, prestação de contas, secretária de cultura, editais, FAC, cinco projetos, 160 mil. A minha poesia parou de fazer sentido. Por quanto tempo vai durar esse amor? Ejaculações precoces, frigidez, deserto, festas estranhas, Skype e webcam.  Será que a minha caixa de e-mail quer me iludir?  O calor do Acre. A lembrança de um telefonema. Voz, corpo, ausência. Dou aula, corrijo tarefas, dou feedbacks.  Viajo de taxi, de ônibus, de avião.  Descanso de mim. Aperto um. Sigo pra Chapada dos veadeiros. Amigos paraibanos, uma revista virtual, um beijo metálico. Tenho medo do futuro. Viajamos todos juntos. Uma proposta de namoro, a minha recusa. Ensaios, ensaios, ensaios. A copa do mundo na casa da mãe da Tati. A comida do Ivan. A amizade da Kamala. Verde e amarelo. Uma aliança enorme estampada na tela do meu computador.  Eu quero matar toda esperança que existe no mundo. Eu me escondo no silencio. Eu me atiro nas festas. Uma menina linda, dez beijos suaves. Escuto cantadas machistas, tiro as cartas de tarô. Eu levo a minha menina no aeroporto. Não há barreiras. E damos o último beijo na porta de embarque. Palco giratório. (des)esperar. Taguatinga, Ceilândia, Brasília. Os sambas no MRE. Devo entornar todas as garrafas de uísque do mundo? Outro beijo, um violão. Todas as músicas do Chico no meu ouvido. Uma tentativa sincera. Cafés, almoços italianos, por do sol, eventos sociais, livros emprestados. Um dia de cada vez. Eu entro na água com cuidado. Ainda há muita saudade engasgada. Um convite para uma festa, uma casa revisitada, uma caricatura exposta, um dia fora do tempo, um email. Pra que mentir pra mim mesmo? A vida é um eterno aprender. Casas compartilhadas, famílias apresentadas. Todos os fins de semana estão agendados para o mesmo fim. Tiro meu aparelho, visito o escritório.  Aprendo sobre a Advocacia. Aperto outro cigarro. Mordo o lábio inferior do meu namorado, ele reclama. Esboço uma poesia. Não sinto verdade nas minhas rimas. Uma amizade parece crescer. Mas cadê a minha paixão? Só podemos preencher um coração quando este está vazio. Personagens, tentativas, peças de teatro.  Festival Mulher em Cena. Martins Pena. Trabalho, trabalho, trabalho. Patrocínio com SESI. Chapada dos Veadeiros. Uma galera, uma briga, as velas, a cama de casal, o incenso. Será que o caminho está mesmo errado? Frio na barriga, beijo no pescoço. Trabalho, trabalho, trabalho. Assinaturas, abertura de conta em banco, revisão do carro. Ensaio, ensaio, ensaio. Uberaba. Van, Andaime, aplausos. Dinheiro. Chopin. Estréia. Dormir junto todas as sextas-feiras. Almoçar no sábado. Conciliar o tempo. Ler e-mails, atender celular. Conciliar o caos. Escuto o violão dele, aceito a sua lei seca. Acho graça das tuas caretices virginianas, da sua altura, da vontade de agradar a todos. Dou o meu voto para pessoas que eu não acredito. É preciso tentar de verdade. O Rio de janeiro me espera. Oitenta anos da Vovó. Tios, primas, restaurantes, presentes, salão de beleza, Lapa, porres homéricos. Jantar na casa do pai da Kamala. São Paulo. Mensagens, gtalk. Bienal. O coração bate. Surpreende. Desorienta. Thelonious Monk na vitrola. O toque suave e forte, como piano dedilhado. Gosto de chuva ao acordar, o corpo satisfeito enroscado na cama. O sotaque ao pé do ouvido ao longo de quatro excelentes dias. A capital paulista está apaixonada por mim. Voltar para casa mais uma vez. Brasília me recebe com chuva ambígua. Saudades misturadas. Chocolates belgas no aeroporto. Almoço rápido. Trabalho, ensaio, trabalho, ensaio. Filme selecionado para o festival de Cinema. Produção, produção, produção. A espera se arrasta por uma semana e meia. Análises sentimentais, meu risoto de pêra com gorgonzola , champanhe. Como posso orquestrar o furacão que está aqui dentro? A minha perdição retorna, o meu peito rasga. É maior que o sexo, é maior que as convenções.  Eu fujo do mundo por uma semana. Escondida num hotel, os meus pés perdem o contato com o chão. Eu danço no meio da esplanada. Escancaro a minha loucura, mancho os lençóis brancos de sangue. Dor, esperança e amor estilhaçado. Eu quero pichar todas as quadras. Quero colocar cicuta no uísque. Quero morrer um pouco. Eu choro, eu me despedaço. Viajo para o Acre. Vomito no aeroporto. Escrevo sobre borboletas, caminhos, quereres. Eu procuro a minha cabeça perdida no meio do nada. Eu volto para o cerrado. Desfaço os laços que já estão frouxos. Eu tomo um ácido. Beijo um amigo para distrair. Quem eu quero enganar? Minhas ruínas estão expostas por toda cidade. Tento trabalhar. Procurar pauta, imprensa, concreto. Faço chamada, dou aula. Curto circuito. Produção, jogos, produção. Um telefonema.  A voz, o timbre, o cheiro. O amor interrompe o meu trabalho. Meus olhos marejam, eu balanço. Quero costurar a minha vida naquela pele dele. Tenho idéias patéticas.  Espero a madrugada, exibo as minhas partes. Lambo a tela do computador. Publico as nossas poesias na capa do jornal. Somos descobertos. Julgados. Sou arrastada novamente para o Acre. Rua sem saída. Nenhuma atitude, a espera, a covardia de sempre. Dou todo o meu apoio. Tenho medo do futuro. Receio dos meus desejos. Tento compreender o que não é explicado. Passo 4 dias em Brasília. Arrumo e desarrumo malas. Arte gráfica, imprensa, trabalho, ensaio, notas fiscais, compra de passagens, pagamentos, diárias de alimentação. Belo Horizonte. Galpão Cine Horto. Trabalho, cachaça, choro, estado de minas, apresentações, seminário, feira da música, cartaz, filipeta, pagamentos, críticas, os aplausos, as caras feias. Pisamos no céu. Mais uma peça, mais um andar. É preciso voltar pra casa. Colocar os pés pra cima. Brasília ainda me quer por duas semanas. Analiso o ano. Agradeço as conquistas, os machucados. Compro uma agenda e um caderno. Faço planejamentos. Peço organização. Dinheiro. Um amor possível. Uma casa nova. Tomo o derradeiro porre no Beirute. Procuro a barraca de camping. Ainda é preciso comprar os presentes de natal. Entregar documentos na UAB. Acabar as tarefas da pós-graduação.  Coloco as roupas para lavar. Escrevo esse texto ridículo no blog. Penso no meu "estranho amor".  Aperto mais um. Imagino a praia da Bahia. Sinto as areias nos pés, a música no ouvido, a saudade no peito. A vida se enche de esperanças. E com um sorriso, 2010 se despede de mim.   

4 comentários:

Camila disse...

foi lindo...
me inspirou a pensar no meu tambem.
feliz novo ano!
que a paz e o amor possam entrar em acordo.

carolnespoli disse...

Ufa! Tanta dor (porque muita coisa).

carolnespoli disse...

Ufa! Tanta dor (porque muita coisa).

Just by myself disse...

Você tem a cena.
Esse um lugar, mais que um lugar físico, uma instáncia. A única manifestação artística na qual o ser humano pode discutir a si, dialogar com seus demônios, tendo outros ali, presentes, tomando parte e partido.

Você tem essa possiblidade mágica.

Quem pode ser maior que isso?

Quando vier a Salvador quero muito te ver na cena.