domingo, maio 18, 2008

Papel de paredE


Desligamento - by Silva ( http://www.flickr.com/photos/osilva/)



Primeiro preciso falar desse rasgo. Um rasgo grande nas costas, de fora a fora, despercebido a olho nu. Marcando algo que foi arrancado de forma rápida, descuidada e dolorida. Ao todo, tenho cerca de oito roxos espalhados pelas pernas, uma queimadura pequena debaixo do queixo e esse rasgo nas costas. Feridas abertas para quem quer ver. Como cuidar disso tudo isso assim, sozinha? Pele exausta de pancadas diárias. Ainda há uma espera infantil. Boba agoniada. Espera por seu cuidado. Ou palavras. Ou explicações. Ou abraços. Ou qualquer coisa sua. Olhando assim, de fora, parece ser patético demais para uma mulher interessante como eu. Uma mulher que não sabe cuidar dos próprios machucados. Florais de Bach, meditações, porre homérico, um beijo numa boca imunda qualquer. Dizem que passa, que melhora. Dizem tantas coisas a respeito do meu rasgo. Palavras inúteis. Eu continuo com ele aqui, aberto. E quando ele começar a cicatrizar, vai deixar de lembrança uma marca. A marca vai desbotar com o tempo, vai impedir que eu lembre a dor do corte, vai me colocar de novo em perigo. Mas por enquanto, ele está escancarado sobre as minhas costas. E perco muito sangue vivo, principalmente quando vejo a sua indiferença em relação à profundidade desse meu rasgo. Dói, minha grande queda. Agora me encontro aqui: caída nessa calçada suja. Um anjinho caído? Não, uma mulher puta. Entregue ao acaso e sem nenhum casinho interessante pra trepar. E pra piorar, eu ainda não consigo entender direito o porquê dessa queda. Já procurei motivos plausíveis para entender o ato de escancarar os seus braços e me deixar cair pela janela do seu quarto sem dizer pelo menos boa viagem. E eu não tinha pára-quedas. Despenquei feito um abacate maduro do pé. Junto ao concreto, estatelada no chão, esbarro com o seu sorriso feliz lá no alto. Não que você seja um homem sádico ou daquelas pessoas que riem da desgraça dos outros. Não, você é um homem bom, age com sinceridade e inclusive não esconde a sua dança bonita com seu novo par. Já eu, moça falsa, tento encenar com muita maquiagem e vodca barata, esse corte nojento que grita nas noites frias. Grita, xinga, berra e pede vingança. Poderia tentar educar bem esse meu filhote, meu rasgo de estimação, para que ele fosse um bom moço como você, que soubesse dizer fodasse de uma forma suave e romântica. Bom , nesse momento, você deve está se questionando como uma queda curta pode doer tanto? Será que é manha de poeta triste? É um aborto mesmo. Aborto aberto, que sangra e dá medo de novos braços, mesmo que estes, sejam os seus. Foi meu cheiro? Meu latim barato? O medo do encontro? Ou apenas seu cansaço? Sigo sozinha com o coração abortado. E todos os dias, ao amanhecer, depois da minha insônia diária, tento vomitar o que resta de você em mim. O olhar de palavras bonitas, a escova de dente doada, o banho quente no seu chuveiro. Vomitar tudo pra ver se o rasgo melhora. Podíamos ter sido algo mais que dois corpos perdidos nessa humanidade imunda. Não quero com essas palavras tolas tentar uma volta, criar clima ou fazer o papel de vitima. Se me coloquei de frente para aquela janela, solta ao por do sol, entregue aos seus braços, foi porque no fundo, queria voar. Não cair, mas voar sobre o céu imenso da cidade cimento. E agora ando em companhia do meu rasgo aberto que se mistura com doses generosas de destilados, sorrisos falsos e olhares desfocados para a multidão faminta. Dói, pesa e me deixa de lápis borrado! Para que tentar esconder o que está na cara? Papel de parede de cores frias. Meu triste papel mofado com rasgo de fora a fora.

5 comentários:

Anônimo disse...

os rasgos fortalecem a alma..

Léo Gama disse...

Tô por aqui... qquer coisa é só chamar!

Bruno disse...

Do caralho esse texto...Não te conheço, faço parte do público apenas. O preço desta palavras talvez tenha sido alto...mas é disso também que brota arte, pelo menos aos meus olhos. Da merda nossa de cada dia. Não que eu acredite na ferida e no cú como únicas fontes de inspiração. Mas francamente o que não sai das tripas é pipoquinha, banderola e algum ego. Sabe...Devaneios pequeno-burgueses de SQS ou N... Do caralho,miss, do caralho... Com licença, volto a minha insignificância. Abraço do público.

Gui Campos disse...

Essa tua pele frágil de pisciana se abre muito fácil e te faz sangrar ao menor toque. Acho que a minha já tá mais calejada... É bonito e intenso, e sofrer faz crescer, e crescer, embora seja chato, tem suas coisas interessantes.
Bonito o texto. Gostei. Mas fica triste não!

A Riscar disse...

Ai, amiga, vou roubar esse texto e assinar meu nome embaixo!

Coisa de poeta triste. Eh coisa de poeta triste mesmo, porque poeta precisa sofrer. E a gente sofre...

Saudade cresceu por aqui tambem!

Poder ler as tuas palavras me poe tao pertinho de voce. E isso eh bom!

Se cuida, fica feliz, leve, e continua linda, ta?!

Ai, como eu queria estar com voce agora, agorinha!

Te amo.
Anita.