
" Demasiado, demasiado esforço. Imaginou a cidade lá fora, com gentes falando sempre alto demais, sem parar entrando e saindo dos lugares, bebendo, comendo coisas, pagando contas, dançando alucinadamente, querendo ser felizes antes da segunda-feira: urgente."
Caio Fernando Abreu
Caio Fernando Abreu
Era cedo, nem oito horas da noite. Noite de sábado. Mais uma de tantas que já foram e tantas que virão. Aquele dia que a única coisa que queríamos é ficar bem servida na cama, em companhia de um bom filme do Bertolucci e com mãos habilidosas debaixo dos lençóis. Talvez alguns arranhões nas costas e mordidas na nunca também seriam providenciais para noites como essas. Tinha nojo de sair nas noites de sábado. Sempre os mesmos bares, esbarrando com as mesmas pessoas, a mesma babaquice de sempre. " Oi, meu amor! Como você tá? " - responderia com um sorriso falso e com uma vontade imensa de trucidar a voz chata que incomodava. Como ficar bem nesse mundo torto e sem graça? Ir para alguma festa num dia desses é um verdadeiro atestado de burrice, essa cidade está repleta de moleques por todos os lados que parecem brotar de chocadeiras histéricas. Não, não é só porque era sábado que daria o trabalho de tentar caçar inutilmente numa floresta vazia. Preferia ficar com seus autores favoritos. Quem sabe fumar unzinho pra relaxar. Ou se masturbar até o corpo dizer chega e depois olhar para lado e encontrar a cama vazia. O seu vazio de costume. Era cedo, nem oito horas da noite. Daqui a pouco o telefone ia começar a pipocar ligações que buscavam informações de qual seria a boa de hoje, ou o que ela iria fazer nessa noite estrelada. Ou pior, algum ex-qualquer-coisa querendo relembrar os velhos tempos. Ela não era dessas pessoas que costumam olhar pra trás. Preferia ficar onde estava: enrolada no seu edredom preto, nua, sozinha e bem despenteada. Estava cansada de passar maquiagem nas olheiras das noites perdidas, de olhar para a multidão faminta, de ser a mulher bonita e interessante da maravilhosa noite de sábado. Desgraça! Porque não passamos da sexta-feira direto para o domingo? Na verdade, isso pouco importava nesse momento. Domingo ou sábado, sabia que o vazio seria o mesmo. O vazio que não passava nunca, que impedia de se adaptar essa cidade, a esse país, a essa vida. Porque pra ela não era tão fácil como para os outros? Porque esse romantismo babaca de historia infantil? Porque ela, como uma mulher moderna e inteligente, não podia dar uma boa trepada com qualquer um - dos milhões que correm atrás dela - e esquecer de tudo em seguida? Porque esse vazio insistia em corroer seu peito, fazendo se sentir a criatura mais sozinha e infeliz da noite de sábado? Não era excesso de moralismo católico ou de novelas clichês. Mesmo porque, nunca tinha ido à igreja, a não ser de passagem, em casamentos e missas de sétimo dia. Mesmo assim, nunca se sentiu bem num lugar onde o pé direito era enorme e havia quadrinhos com cenas de torturas pregadas por todos os lados. Ela gostava do belo, mesmo esse seu belo sendo sempre muito peculiar. E quanto à televisão, odiava tudo que vinha daquele quadrado escroto: o som, a seqüência das imagens, o consumismo desvairado, as mocinhas, a solidão pré-anunciada. Era como se quando ligasse aquela maquina mortífera saísse de lá um manual da felicidade urbana instantânea: Compre, Case, Reze, Beba, Seja feliz. Definitivamente, a falta que sentia não era resultado do grande quantidade de merda desse nosso mundo. Essa falta vinha de outro lugar qualquer, um lugar escondido, perdido, obscuro. Um lugar que não existia nas noites de sábado. Mesmo assim, muitas vezes, em dias normais ou sábados estranhos, ela procurava uma solução para sua falta. Já tinha chegado muito perto de solucionar várias vezes. Chegava a visualizar a sua meta, direcionava o foco, apressava a sua mão e na hora h, no momento que tudo estava pronto a ser realizado e tinha uma enorme certeza que a solução estava ali bem próxima dos seus dedos, ela agarrava com um sorriso infantil algo tão exato como nada. E o que parecia cheio, rapidamente se extinguia. E ela, de novo, era preenchia daquele vazio intimo. O vazio que a impedia de ser igual aos outros, que impregnava seu belo rosto, que a visitava nas noites de sábado. Mas era cedo, nem oito horas da noite, e sábado sorria ironicamente para moça nua enrolada num edredom que esperava inutilmente agarrar algo.